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A LTIMA
RECEITA
MACHADO
DE ASSIS
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A ltima Receita
A viva Lemos adoecera; uns dizem que dos nervos, outros que de
saudades do marido. Fosse o que fosse, a verdade  que adoecera, em
certa noite de setembro, ao regressar de um baile. Morava ento no
Andara, em companhia de uma tia surda e devota. A doena no parecia
cousa de cuidado; todavia era necessrio fazer alguma cousa. Que cousa
seria? Na opinio da tia um cozimento de altia e um rosrio a no sei que
santo do cu eram remdios infalveis. D. Paula (a viva) no contestava a
eficcia dos remdios da tia, mas opinava por um mdico.
Chamou-se um mdico.
Havia justamente na vizinhana um mdico, formado de pouco, e recente
morador na localidade. Era o Dr. Avelar, sujeito de boa presena, assaz
elegante e mdico feliz. Veio o Dr. Avelar na manh seguinte, pouco depois
das oito horas. Examinou a doente e reconheceu que a molstia no
passava de uma constipao grave. Teve entretanto a prudncia de no
dizer o que era, como aquele mdico de anedota do bicho no ouvido,
anedota que o povo conta, e que eu contaria tambm, se me sobrasse
papel.
O Dr. Avelar limitou-se a torcer o nariz quando examinou a enferma, e a
receitar dois ou trs remdios, dos quais s um era til; o resto figurava no
fundo do quadro.
D. Paula tomou os remdios como quem no queria deixar a vida. Havia
razo. Apenas dois anos fora casada, e contava apenas vinte e quatro anos.
Havia j treze meses que lhe morria o marido. Apenas entrara no prtico do
matrimnio.
A esta circunstncia  justo acrescentar mais duas; era bonita e tinha
alguma cousa de seu. Trs razes para agarrar-se  vida como o nufrago a
uma tbua de salvao.
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Uma nica razo haveria para que ela aborrecesse o mundo: era se tivesse
realmente saudades do marido. Mas no tinha. O casamento fora um
arranjo de famlia e dele prprio; Paula aceitou o arranjo sem murmurar.
Honrou o casamento, mas no deu ao marido nem estima nem amor. viva
dois anos depois, e ainda moa,  claro que a vida para ela comeava
apenas. A idia de morrer seria para ela no s a maior de todas as
calamidades, mas tambm a mais desastrada de todas as tolices.
No quis morrer nem caso era de morte.
Os remdios foram tomados pontualmente; o mdico mostrou-se assduo;
dentro de poucos dias, trs a quatro, estava restabelecida a interessante
enferma.
De todo?
No.
Quando o mdico voltou no quinto dia, achou-a sentada na sala, envolvida
em grande roupo, com os ps numa almofada, o rosto extremamente
plido, e muito mais ainda por causa da pouca luz.
O estado era natural em que se levantava da cama; mas a viuvinha alegou
ainda umas dores de cabea, a que o mdico chamou nevralgia, e uns
temores, que foram classificados no captulo dos nervos.
 Sero graves molstias? perguntou ela.
 Oh! no, minha senhora, respondeu Avelar; so achaques aborrecidos,
mas no graves, e geralmente prprios de doentes formosas.
Paulo sorriu com um ar to triste que fazia duvidar do prazer com que ouviu
estas palavras do mdico.
 D-me porm remdios, no? perguntou ela.
 Sem dvida.
Avelar receitou efetivamente alguma cousa e prometeu voltar no dia
seguinte.
A tia era surda, como sabemos, no ouvia nada da conversa entre os dois.
Mas no era tola; comeou a reparar que a filha ficava mais doente quando
se aproximava a chegada do mdico. Alm disso nutria nutria dvidas srias
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acerca da aplicao exata dos remdios. O certo  porm que Paula, to
amiga de bailes e passeios, parecia realmente doente porque no saa de
casa.
Notou igualmente a tia que, pouco antes da hora do mdico, a sobrinha
fazia uma aplicao mais copiosa de p-de-arroz. Paula era morena; ficava
muito branca. A meia luz da sala, os xales, o ar mrbido tornavam-lhe a
palidez extremamente verossmil.
A tia no parou nesse ponto; foi ainda alm. No era mdico o Avelar?
Naturalmente devia saber se realmente estava enferma a viva.
Interrogando o mdico, asseverou que a viva estava muito mal, e
prescreveu-lhe o mais absoluto repouso.
Tal era a situao da enferma e do facultativo.
Um dia em que este entrou achou-a folheando um livro. Estava com a
palidez de costume e o mesmo ar abatido.
 Como vai a minha doente? disse familiarmente o Dr. Avelar.
 Mal.
 Mal?
 Horrorosamente mal... Que lhe parece o pulso?
Avelar examinou-lhe o pulso.
 Regular, disse ele. A tez est um tanto plida, mas os olhos parecem
bons... Houve algum ataque?
 No; mas sinto-me desfalecida.
 Deu o passeio que lhe aconselhei?
 No tive nimo.
 Fez mal. No passeou e est lendo...
 Um livro inocente.
 Inocente?
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O mdico pegou no livro e examinou-lhe a lombada.
 Um livro diablico! disse ele atirando-o para cima da mesa.
 Por qu?
 Livro de poeta, livro para namorados, minha senhora, que  uma casta
de doentes terrveis. No se curam eles; ou raramente se curam; mas h
pior, que  adoecerem os sos. Peo-lhe licena para confiscar o livro.
 Uma distrao! murmurou Paula com uma doura capaz de vencer um
tirano.
Mas o mdico mostrou-se firme.
 Uma perverso, minha senhora! Em ficando boa pode ler se quiser todos
os poetas do sculo; antes, no.
Paula ouviu esta palavra com singular, mas disfarada alegria.
 Parece-lhe ento que estou muito doente? disse ela.
 Muito, no digo; Tem ainda um resto de abalo que s pode desaparecer
com o tempo e um regmen severo.
 Severo demais.
 Mas necessrio...
 Duas cousas lastimo sobre todas.
 Quais?
 A pimenta e o caf.
 Oh!
  o que lhe digo. No tomar caf nem pimenta  o limite da pacincia
humana. Quinze dias mais deste regmen ou desobedeo ou expiro.
 Nesse caso, expire, disse Avelar sorrindo.
 Acha melhor?
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 Acho igualmente mau. O remorso, porm, ser meu s, enquanto que se
V. Ex. desobedecer ter os seus ltimos instantes amargurados por um
tardio arrependimento. Melhor  morre vtima que culpada.
 Melhor  no morrer nem culpada nem vtima.
 Nesse caso no tome pimenta nem caf.
A leitora que acaba de ler esta conversa, admirar-se-ia muito se visse a
nossa doente nesse mesmo dia ao jantar: teve pimenta  farte e bebeu
excelente caf no fim. No admira porque era o seu costume. A tia
admirava-se com razo de uma doena que consentia tais liberdades; a
sobrinha no se explicava cabalmente a este respeito.
Choviam convites de jantares e bailes. A viuvinha recusava-os todos por
causa do seu mau estado de sade.
Foi uma verdadeira calamidade.
Entraram a chover as visitas e bilhetes. Muitas pessoas achavam que a
doena devia ser interna, muito interna, profundamente interna, visto que
lhe no pareciam sinais no rosto. Os nervos (eternos caluniados!) foram a
explicao que geralmente se deu  singular molstia da moa.
Trs meses correram assim, sem que a doena de Paula cedesse uma linha
aos esforos do mdico. Os esforos do mdico no podiam ser maiores; de
dois em dois dias uma receita. Se a doente se esquecia do seu estado e
estava a falar e a corar como quem tinha sade, o mdico era o primeiro a
lembrar-lhe o perigo, e ela obedecia logo entregando-se  mais prudente
inao.
s vezes zangava-se.
 Todos os senhores so uns brbaros, dizia ela.
 Uns brbaros... necessrios, respondia Avelar sorrindo.
E acrescentava:
 Eu no direi o que so as doentes.
 Diga sempre.
 No digo.
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 Caprichosas?
 Mais.
 Rebeldes.
 Menos.
 Impertinentes?
 Sim. Algumas so impertinentes e amveis.
 Como eu.
 Naturalmente.
 J o esperava, dizia a viva. Lemos sorrindo. Sabe por que razo lhe
perdo tudo?  porque  mdico. Um mdico tem carta branca para
gracejar conosco; isso mesmo nos d sade.
Neste ponto levantou-se.
 Parece-me at que j estou melhor.
 Parece e est... quero dizer, est muito mal.
 Muito mal?
 No, muito mal, no; no est boa...
 Meteu-me um susto!
Seria realmente zombar do leitor o explicar-lhe que a doente e o mdico
estavam a pender um par ao outro; que a doente sofria tanto como o
Corcovado, e que o mdico conhecia cabalmente a sua perfeita sade.
Gostavam um do outro sem se atreverem a dizer a verdade, simplesmente
pelo receio de se enganarem. O meio de se falarem todos os dias era
aquele.
Mas gostavam eles j antes da fatal constipao do baile? No. At ento
ignoravam a existncia um do outro. A doena favoreceu o encontro; o
encontro do corao; o corao favoreceia desde logo o casamento, se
tivessem caminhado em linha reta, em vez dos rodeios em que andavam.
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Quando Paula ficou boa da constipao adoeceu do corao; n tendo outro
recurso fingiu-se doente. O mdico, que pela sua parte desejava isso
mesmo exagerou ainda as invenes da suposta enferma.
A tia, sendo surda, assistia inutilmente aos dilogos da doente com o
mdico. Um dia escreveu a este pedindo-lhe que apressasse a cura da
sobrinha. Avelar desconfiou da carta a princpio. Seria uma despedida?
Podia ser pelo menos uma desconfiana? Respondeu que a molstia de D.
Paula era, aparentemente insignificante, mas podia tornar-se grave sem um
regmen severo, que lhe recomendava sempre.
A situao, entretanto, prolongava-se. A doente estava cansada da doena,
e o mdico da medicina. Ambos eles comearam a desconfiar que no eram
mal aceitos. O negcio entretanto no caminhava muito.
Um dia Avelar entrou triste em casa da viva.
 Jesus! exclamou sorrindo a viva; ningum dir que  o mdico. Parece o
doente.
 Doente de lstima, disse Avelar abanando a cabea; por outros termos, 
a lstima que me d este ar enfermo.
 Lstima de qu?
 De V.Ex..
 De mim?
  verdade.
A moa riu-se consigo mesma; todavia esperou a exolicao.
Houve um silncio.
No fim dele:
 Sabe, disse o mdico, sabe que est muito mal?
 Eu?
Avelar fez um gesto afirmativo.
 J o sabia, suspirou a doente.
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 No digo que tudo esteja perdido, continuou o mdico, mas nada se
perde em prevenir.
 Ento...
 Coragem!
 Fale.
 Mande chamar o Padre.
 Aconselha-me a confisso?
  indispensvel.
 Perderam-se todas as esperanas?
 Todas. Confisso... e banhos.
A viva soltou uma risada.
 E banhos?
 Banhos de igreja.
Outra risada.
 Aconselha-me ento o casamento.
 Justo.
 Imagino que est gracejando.
 Estou falando muito srio. O remdio no  novo nem desprezvel. Todas
as semanas l vo muitos enfermos, e do-se bem alguns deles.  um
especfico iventado desde muitos sculos e que provavelmente s acabar
no ltimo dia do mundo. Pela minha parte nada mais tenho que fazer.
Quando a viuvinha menos esperava, Avelar levantou-se e saiu. Falava srio
ou gracejava? Dois dias se passaram sem que o mdico voltasse. A doente
estava triste; a tia aflita; houve idia de mandar chamar outro mdico.
Recusou-a a doente.
 Ento s um mdico acertou com a tua molstia?
11
 Talvez.
No fim de trs dias recebeu a viva Lemos uma carta do mdico.
Abriu-a.
Dizia assim:
 absolutamente impossvel esconder por mais tempo io que sinto por V. Ex.. Amo-a.
Sua molstia precisa de uma ltima receita, verdadeiro remdio para quem ama  sim,
porque V. Ex. tambm me ama. Que razo obrigaria a neg-lo?
Se sua resposta for afirmativa haver mais dois entes felizes neste mundo.
Se negativa...
Adeus!
A carta foi lida com exploso de entusiasmo; o mdico foi chamado a toda a
pressa, para receber e dar sade. Casaram-se os dois da a quarenta dias.
Tal  a histria da ltima Receita.
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12
Sobre o autor e sua obra
JOAQUIM MARIA MACHADO DE ASSIS
nasceu no Rio de Janeiro, a 21 de junho de 1839 e
faleceu na mesma cidade, em 29 de setembro de
1908. Filho de mulato, brasileiro, e de branca,
portuguesa; era gago, epilptico, pobre,  por
causa disto no pde estudar em escolas e tornouse
um grande autodidata.
Colaborou na revista "Marmota Fluminense", foi
aprendiz de tipgrafo na Imprensa Nacional, onde
conheceu seu protetor, Manuel Antonio de Almeida;
foi revisor de provas na Editora Paula Brito e no
"Correio Mercantil" e colaborador em vrios jornais
e revistas da poca.
Na imprensa publicou vrios contos, crnicas, folhetins, artigos de crtica, muitos
dos quais assinados com pseudnimos: Plato, Gil, Lara, Dr. Semana, Job, M.A.,
Max Manasss e outros.
Casou-se em 1869 com D. Carolina Novais, que veio dar mais inspirao  sua vida
literria. Em 1904, quando D. Carolina morreu, ainda inspirou o mais belo soneto
de sua produco: "A Carolina", publicado no livro "Relquias de Casa Velha":
"Querida, ao p do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o corao de companheiro.
"Pulsa-lhe- aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existncia apetecida
E num recanto ps o mundo inteiro.
"Trago-te flores, - restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.
"Que eu, se tenho nos olhos malferidos
13
Pensamentos de vida formulados,
So pensamentos idos e vvidos".
Foi o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, em 1897.
Poesias: "Crislidas", (1864); "Falenas", "Americanas".
Romances: "Ressurreio", "A Mo e a Luva", "Helena", "Iai Garcia".
Contos: "Contos Fluminenses", "Histrias da Meia Noite", (1869).
Teatro: "Desencantos", "0 Caminho da Porta", "0 Protocolo", "Quase Ministro", "Os
Deuses de Casaca". Crnicas e Crticas. Fase Realista (de 1881 a 1908)
Poesias: "Ocidentais".
Romances: "Memrias Pstumas de Brs Cubas", "Quincas Borba", "Dom
Casmurro", "Esa e Jac", "Memorial de Aires". Contos: "Papis Avulsos",
"Histrias sem Data", "Vrias Histrias", "Pginas Recolhidas", "Relquias de Casa
Velha".
Teatro: "Tu, s Tu, Puro Amor" "No Consultes Mdico", "Lio de Botnica",
crnicas e crticas.
Machado de Assis  de estilo clssico e sbrio, com frases curtas e bem
construdas, vocabulrio muito rico e construes sintticas perfeitas. Sua obra 
de anlise de caracteres e seus tipos so inesquecveis e verdadeiros. Em toda sua
obra h uma preocupao pelo adultrio, tentado ou consumado, e muito de
filosofia: a filosofia do humanitismo, que  explicada no seu romance "Quincas
Borba". Sua tcnica de composio no romance  muito importante para a
compreenso da obra: no h homogeneidade na extenso dos captulos: ora
curtos, ora longos, no existe normalmente a seqncia linear, isto , muitas vezes
um captulo no tem um final de ao, que ir continuar no no imediatamente
seguinte, mas em outro um pouco distante. Esta tcnica procura prender a ateno
do leitor at o fim do livro, o que realmente consegue.
Sem dvida, trata-se do mais alto escritor brasileiro de todos os tempos, o
primeiro escritor universal de nossa Literatura. De uns tempos para c, sua obra
vem sendo objeto de estudos em profundidade, sob ngulos vrios, constituindo-se
no maior acervo bio-bibliogrfico que jamais suscitou um escritor nacional.
Sobretudo, cumpre destacar-se, como a mais importante de sua obra, a parte de
fico - seus contos, verdadeiras obras-primas - e os romances a partir da fase
que se Iniciou com as "Memrias Pstumas de Brs Cubas".
Machado de Assis no se filia a qualquer coisa, dando apenas vazo ao seu prprio
sentimento de homem introspectivo.  possuidor de um estilo simples, sem
nenhum artificialismo. A conciso  uma de suas mais eloqentes caractersticas.
14
Cuidou, em suas obras, mais do homem do que da paisagem. No foi grande
poeta. Inicialmente passou pelo romantismo e depois mostrou-se parnasiano. Para
Machado de Assis o homem  egosta, impassvel diante da felicidade ou
infelicidade do seu semelhante. 0 sofrimento  inerente  prpria condio
humana. 0 homem sonha com a felicidade, sem suspeitar que tudo  Iluso.
Machado aconselha ento a solido, o Isolamento, por no crer no solidarismo
humano.
No teatro Machado de Assis se revela como tradutor, critico e comedigrafo. Como
critico procurava exaltar os valores morais. Para ele, "a arte pode aberrar das
condies atuais da sociedade para perder-se no mundo labirntico das abstraes.
0 teatro  para o povo o que o Coro era para o antigo povo grego: uma iniciativa
de moral e civilizao."
E ainda foi alm. Ressuscitando uma antiqualha dos Sculos XVII; inovou o soneto,
dando-lhe a forma contnua do (Crculo Vicioso). Outra inovao: a alternncia do
octosslabo com o tetrasslabo, de que se utilizou nos versos a Artur de Oliveira.
Combinado o octosslabo com o doclecasslabo, criou ainda o ritmo dos
agrupamentos da Mosca Azul. E deu em 1885 uma incomparvel lio de poesia
quando, na ocasio comemorativa do centenrio do Marqus de Pombal, publicou,
sob o ttulo de A Suprema Injria, uma srie de quatorze sonetos, onde no h
dois iguais na sua forma.
Machado de Assis foi ainda um tcnico do verso, o admirvel tradutor de a primeira
fase machadiana. 0 terceiro romance, Helena, jovem confrade, e escreve poesia, a
quem devemos pelo o que seria diferente da j representa uma evoluo. Vai
eclodir com as Memrias Pstumas de Brs Cubas.
No romance como na poesia, Machado de Assis ressente-se de influencia romntica
nas primeiras obras: Ressurreio (1872), A Mo e a Luva (1875), Helena (1876) e
Iai Garcia (1878).  toda romntica a concepo dos personagens e do entrecho;
revela-se a personalidade do autor na preocupao mais acentuada do estudo dos
caracteres. Mas as situaes que arma, para os revelar, e a prpria compreenso
que deles tem, tudo trai a viso romntica, ainda que mitigada pela analise
psicolgica.
De Ressurreio, em que a narrao e linear, a lngua pobre, os caracteres de
linhas definidas, a Iai Garcia, onde a narrativa  dotada de maior penetrao, a
lngua se precisa e os caracteres j se mostram mais complexos, o progresso 
significativo. 0 mais romanesco dos trs  Helena, a confinar por vezes com a
inverossimilhana.
Memrias Pstumas de Brs Cubas
Brs Cubas, j falecido, conta, do outro mundo, as suas memrias: "Expirei em
1869, na minha bela chcara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos
e prsperos, era solteiro, possua trezentos contos e fui acompanhado ao cemitrio
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por onze amigos". Galhofando dos ascendentes, fala da prpria genealogia.
Assevera que morreu de pneumonia apanhada quando trabalhava num invento
farmacutico, um emplastro medicamentoso.
Virglia, sua ex-amante, que j no via h alguns anos, visitou-o nos ltimos dias
de vida. Narra Brs Cubas um delrio que teve durante a agonia: montado num
hipoptomo foi arrebatado por unia extensa e gelada plancie, at o alto de uma
montanha, de onde divisa a sucesso dos sculos. Alm dos pais, tiveram grande
influncia na educao do pequeno Brs Cubas trs pessoas: tio Joo, homem de
lngua solta e vida galante; tio Ildefonso, cnego, piedoso e severo; Dona
Emerenciana, tia materna, que viveu pouco tempo. Brs passou uma infncia de
menino traquinas, mimado demasiadamente pelo pai.
Aos dezessete anos apaixona-se por Marcela, dama espanhola, com quem teve as
primeiras experincias amorosas. Para agradar Marcela, Brs comea a gastar
demais, assumindo compromissos graves e endividando-se. Marcela gostava de
jias e Brs procurava fazer-lhe todos os gostos. "Marcela amou-me, diz Brs
Cubas, durante quinze meses e onze contos de ris". Quando o pai tomou
conhecimento dos esbanjamentos do filho, mandou-o para a Europa: "vais cursar
uma Universidade", justificou. Em Coimbra, Brs segue o curso jurdico e
bacharela-se. Depois, atendendo a um chamado do pai, volta ao Rio: a me estava
moribunda. E, de fato, apenas chega ao Brasil, a me falece. Passando uns dias na
Tijuca, conhece Eugnia, moa bonita, mas com um defeito na perna que a fazia
coxear um pouco, com ela mantm um passageiro romance.
O pai de Brs tem duas, ambies para o filho: quer cas-lo e faze-lo deputado.
Tudo faz para encaminh-lo no rumo do casamento e procura aumentar o circulo
de amigos influentes na poltica, a fim de preparar o caminho para o futuro
deputado. Assim  que Brs Cubas  apresentado ao Conselheiro Dutra que
promete ajudar ao jovem bacharel na pretendida ascenso poltica.
Brs nesta altura vem a conhecer Virglia, filha do Conselheiro Dutra, pela qual se
apaixona. Parecia, com isso, que os sonhos do pai sobre Brs estavam prestes a
realizar-se: bem encaminhado na poltica e quase noivo. Entretanto aconteceu um
imprevisto: surge Lobo Neves que no somente lhe rouba a namorada, mas
tambm cai nas boas graas do Conselheiro Dutra.
Vendo assim preterido o filho, o pai de Brs sente-se profundamente desapontado
e magoado. Veio a falecer dali a alguns meses, de um desastre. Virglia casa-se
com Lobo Neves e, pouco tempo depois, v eleito Deputado o marido. Mas, na
verdade, Virglia casara-se com Lobo Neves por interesse, e ama realmente a Brs
Cubas. Virglia e Brs principiam a encontrar-se com freqncia e, em breve,
tornam-se amantes. Lobo Neves adorava a esposa e nela confiava inteiramente.
Alis no tinha muito tempo para observar o que se passava, j que estava
entregue totalmente  poltica.
16
Narra nesta altura Brs Cubas o encontro que teve com seu ex-colega de escola
primria, Quincas Borba, que se tornara um infeliz mendigo de rua. Depois do
encontro com Quincas, Brs percebe que o maltrapilho lhe roubara o relgio. Os
encontros amorosos entre Virglia e Brs suscitam comentrios e mexericos dos
vizinhos, amigos e conhecidos. Por esse motivo, Brs prope a Virglia a fuga para
um lugar distante. Virglia, porm, pensa no marido que a ama e na famlia, e
sugere "uma casinha s nossa", metida num jardim, em alguma rua escondida. A
idia parece boa a Brs, que sai remoendo a proposta: "uma casinha solitria, em
alguma rua escura". Virglia e sua ex-empregada, chamada Dona Plcida, se
encarregam de adornar a casa e, aparentemente, quem ali reside  Dona Plcida.
Ali os dois amantes se encontram sem maiores embaraos, e sem despertarem
suspeitas. Sucedeu que, de certa feita, por motivos polticos, Lobo Neves foi
designado como presidente de uma provncia e, dessa forma, teria de afastar-se
com a mulher. Brs fica desesperado e pede a Virglia que no o abandone.
Quando tudo parece sem soluo, eis que surge Lobo Neves e, para agradar ao
amigo da famlia, convida-o para acompanh-lo como secretrio. Brs aceita. Os
mexericos se tornam mais intensos e Cotrim casado com Sabina, procura fazer ver
ao cunhado que a viagem seria uma aventura perigosa. Mais por superstio do
que pelos conselhos de Cotrim, Lobo Neves acaba no aceitando mais o cargo de
presidente, porque o decreto de nomeao sara publicado no Dirio oficial num dia
13: Lobo Neves tinha pavor pelo nmero, um nmero fatdico. Lobo Neves recebe
uma carta annima denunciando os amores da esposa com o amigo. Isso faz com
que os dois amantes se mostrem mais reservados, embora continuem
encontrando-se na Gamboa (onde fica a casa de Dona Plcida).
Surge ento um acontecimento que vem alterar a situao os personagens: Lobo
neves  novamente nomeado presidente e, desta vez, parte para o interior do pas
levando consigo a esposa. Brs procura distrair-se e esquecer a separao.
A irm Sabina, que vinha procurando "arranjar" um casamento para Brs, volta a
insistir em seu objetivo. A candidata, uma moa prendada, chamava-se Nh-lol.
Mesmo sem entusiasmo, Brs aparenta interesse pela pretendente, mas Nh-lol
vem a falecer durante urna epidemia. o tempo vai passando.
Mais por distrao do que por idealismo, Brs procura um derivativo de suas
decepes amorosas na poltica. Faz-se deputado e, na assemblia, vem a
encontrar-se com Lobo Neves que havia voltado da provncia. Encontra-se tambm
com Virglia, que no tinha j aquela beleza antiga que o havia atrado
anteriormente. Assim, por desinteresse reciproco, chegam ao fim os amores de
Brs e Virglia. Quincas Borba, o mendigo, reaparece e lhe restitui o relgio,
passando a ser um freqentador da casa de Brs.
Quincas Borba estava mudado: no era mais mendigo, recebera uma herana de
um tio em Barbacena. Virara filsofo: havia inventado urna nova teoria filosficoreligiosa,
o Humanitismo, e no falava noutra coisa. 0 prprio Brs Cubas passa a
interessar-se muito pelas teorias de Quincas Borba. Morre, por esse tempo, o Lobo
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Neves, e Virgilia "chorou com sinceridade o marido, como o havia trado com
sinceridade". Tambm vem a falecer Quincas, Borba, que havia enlouquecido
completamente. Brs Cubas deixou este mundo pouco depois de Quincas Borba,
por causa de urna molstia que apanhara quando tratava de um invento seu,
denominado " emplasto Brs Cubas".
E o livro conclui:
"Imaginar mal; porque ao chegar a este outro lado do mistrio, achei-me com um
pequeno saldo, que  a derradeira negativa deste captulo de negativas: no tive
filhos, no transmiti a nenhuma criatura o legado de nossa misria".
Fato narrativo em primeira pessoa; posio trans-temporal, a narrativa acompanha
os vaivns da memria do narrador defunto.
Quebra da unidade estrutural da narrativa: - forma livre, estrutura fragmentada,
ausncia de um fio lgico e ausncia de um conflito central.
Drama da irremedivel tolice humana. Brs Cubas tudo tentou e nada deixou. A
vida moral e afetiva  superada pela biologicamente satisfeita. Acomodao cnica
ao erro, ou melhor, a justificao moral interior racionalizada. Pessimismo
(influncia de Sterne, Schopenhauer, Darwin e Voltaire).
Segundo o Professor Alfredo Bosi :
"Memrias Pstumas de Brs Cubas" opera um salto qualitativo na Literatura
Brasileira. "A revoluo dessa obra, que parece cavar um poo entre dois mundos,
foi uma revoluo ideolgica e formal: aprofundando o desprezo s idealizaes
romnticas e ferindo o cerne do narrador onisciente, que tudo v e tudo julga,
Machado deixou emergir a conscincia nua do indivduo, fraco e incoerente. 0 que
restou foram as memrias de um homem igual a tantos outros, o cauto e
desfrutador Brs Cubas.
Quincas Borba
Quincas Borba  um filsofo-doido. Mais na segunda que na primeira parte. Criou
uma filosofia: Humanitas. "Humanitas"  o princpio nico, universal, eterno,
comum, indivisvel e indestrutvel... Pois essa substncia, esse principio
indestrutvel  que  Humanitas... " Uma guerra: duas tribos que se encontram,
frente a frente, perto de uma plantao de batatas que s daro para sustentar
uma delas.  a luta pelas batatas. Pela sobrevivncia. A tribo que vence, ganha as
batatas. "Ao vencedor, as batatas". Filosofia e sandice condimentam as lies de
Quincas Borba.
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0 filsofo tinha um co: Quincas Borba. Pusera nele o seu prprio nome. Afinal
Humanitas era comum para ele e para o co. E no s: se morresse antes
sobreviveria o oo. Um co, meio tamanho, cor de chumbo, malhado de preto. Um
filsofo assim tinha que acabar em... Barbacena. AI conheceu a Piedade, viva de
parcos meios, Era irm de Rubio. No se casou com o herdeiro. Rubio foi o
melhor amigo e enfermeiro do filsofo.
Quando Quincas Borba morreu, numa incurvel semidemncia, na casa de Brs
Cubas, no Rio, Rubio ficou rico, herdeiro universal do falecido filsofo. Herdeiro de
tudo. Depois em breve pendncia recebeu: casa na Corte, uma em Barcelona,
escravos, aes no Banco do Brasil e muitas outras, jias, dinheiro, livros, a
filosofia do morto e o seu co Quincas Borba. A clusula nica do testamento era
tratar bem o co.
0 novo-rico muda-se para a Corte. Fica conhecendo o casal Palha e Sofia. E o
pobre mestre-escola fica apaixonado por ela. Que olhos, que ombros, que
braos!... Vinte e seis anos... Cada aniversrio era um novo polimento dado pelo
tempo.  bonita, sabe que , e sabe mostrar-se. 0 marido gostava de mostr-la a
todos: vejam o que so as minhas e de se mostrar . E Sofia aprendeu logo e bem a
arte se mostrar. Sofia seduz Rubio. Engana-o... Busca o dinheiro. Ganha
presentes riqussimos. O marido funda at a sociedade Palha e Cia.
 o dinheiro de Rubio que vai correndo. Muito depressa. A Sofia tem l os seus
desejos escondidos para com o galanteador Carlos Maria, Pobre Rubio! 0 dinheiro
acabando, os amigos vo minguando, e a loucura vai chegando. Rubio passa
pelas ruas aos gritos dos moleques ( 0 gira,  gira...) certo que  Napoleo III .
Metem-no num Sanatrio. Rubio foge do sanatrio do Rio e vai para Barbacena.
L morre. E trs dias depois encontraram o co Quincas Borba, tambm morto,
numa rua.
 o fim? Leitor: "eia, chora os dois recentes, se tens lgrimas.Se so tens risos, rite.
 a mesma coisa.  outra crnica de fraquezas e misrias morais, concluda
com uma filosofia desencantada, a filosofia do Humanitas: "Ao vencedoras
batatas"... Uma sbita fortuna, uma paixo adltera, ambies polticas acabam
levando Rubio  loucura. Ele, que antes era um humilde mestre-escola, ingnuo e
puro, envolve-se em um novo mundo, violento e agressivo. A fraqueza o destri.
Narrado em 3a Pessoa.  o mais objetivo dos Romances de Machado. Anlise
psicolgica de um homem Pobre que subitamente fica rico e a fortuna arrasta-o 
loucura. E s a loucura salva Rubio do destino vulgar de vaidoso rico, explorado
pelos que o cercam.
O Humanitismo:
"Ao vencedor, as batatas", pode ser interpretado como uma pardia irnica ao
positivismo e evolucionismo. Posies filosficas dominantes na segunda metade
do sculo XIX-.  uma caricatura do princpio da evoluo e da seleo natural que,
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na poca, saam do campo da biologia para impregnar a filosofia.
DOM CASMURRO
A prpria personagem central, Bentinho,  que conta a sua histria. Pincipia
dizendo que est morando, sozinho, auxiliado por um criado, no Engenho Novo
(Rio de Janeiro), em uma casa que ele mandara construir igual quela em que
passara a infncia, em Matacavalos. Como vive isolado, os vizinhos apelidaram de
Dom Casmurro, apelido que pegara. A histria principia quando Bentinho j est
com quinze anos e sua amiga de infncia, Capitu, com quatorze.
Os dois crescem juntos e se estimam sinceramente. Dona Glria, me de Bentinho,
viva, tendo sido infeliz no primeiro parto, fizera a Deus uma promessa, se fosse
bem sucedida no segundo parto, o filho seria religioso (padre ou freira, conforme o
sexo)  Por isso, estava disposta a cumprir a promessa: Bentinho iria para o
seminrio.
 medida que o tempo passa e que a amizade de Bentinho e Capitu se transforma
em namoro srio e apaixonado, a idia do seminrio vai-se tornando um grave
problema para os dois, que buscam todas as maneiras de evit-lo. Justina, prima
de Dona Glria, que vivia em Casa desta, e a quem Bentinho suplica que interceda
com a me em seu favor, se nega. Jos Dias, velho empregado da casa, muito
estimado, diz que o problema no  fcil, pois o melhor , antes, aplainar o
caminho. 0 prprio Bentinho, de ndole tmida, tenta falar com a me, mas nem
sequer consegue dizer-lhe o que quer. Capitu, e Bentinho perdem as esperanas
de evitar o seminrio. De qualquer modo, amando-se sinceramente, juram que,
acontea o que acontecer, se casaro. Bentinho ir para o seminrio, mas ficar
apenas algum tempo. Depois sair e sero felizes.
No seminrio, Bentinho trava conhecimento com Escobar, que se toma seu amigo
e confidente. A vida agora transcorre entre os estudos eclesisticos e as visitas
semanais  sua casa. Escobar em conversa com bentinho, tem uma idia: Dona
Glria, rica que , poderia cumprir a promessa de outro modo, isto , custeando as
despesas de um seminarista pobre, ficando Bentinho livre do seminrio. A idia
vinga e Bentinho retoma  casa. Anos depois, j formado em Direito, casa-se com
Capitu e comeam uma vida repleta de felicidades. E essa felicidade ainda se torna
maior quando Escobar, que tambm sara do seminrio, casa-se com Sancha,
amiga de Capitu.
As duas famlias visitam-se freqentemente. Escobar e Sancha tm uma filha, 
qual do o nome de Capitolina (Capitu). A nica tristeza (se  que se pode chamar
tristeza)  no terem, Bentinho e Capitu, um filho. Por isso, fazem promessas e
rezam continuamente. E o filho vem: um menino, a alegria dos pais. Chama-se
Ezequiel. Escobar vem morar mais prximo de Bentinho e Capitu. Certo dia,
Escobar se aventura nadando pelo mar agitado e morre afogado. Sancha retira-se
para o Paran, onde possua parentes.
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E a vida continua, feliz. S uma coisa principia a preocupar cada vez mais
seriamente a Bentinho: Ezequiel,  medida que vai crescendo, vai-se tornando uni
retrato vivo do falecido amigo. Os mesmos traos, o mesmo cabelo, os mesmos
olhos, o mesmo andar, at os mesmos tiques. A dvida atormenta Bentinho, e
uma infinidade de pequenas coisas que no passado haviam passado despercebidas
comeam a avolumar-se confirmando as suspeitas: Capitu o trara. Um dia explode
com Capitu, que no consegue encontrar meios de escusar-se. Pelo contrrio, suas
desculpas confirmam definitivamente a culpa. Bentinho leva a esposa adltera? E o
filho de Escobar para a Sua, onde deles se separa. Tempos depois Capitu vem a
falecer. Ezequiel, j moo, surge em casa de Bentinho: tornara-se a cpia do pai.
Ezequiel no pra no Brasil e, participando de uma excurso no Oriente, tambm
morre.
 o trmino do livro. Conclui Machado de Assis: A minha primeira amiga e o meu
melhor amigo, to extremosos ambos e to queridos, tambm quis o destino que
acabassem juntando-se e enganando-me. A terra lhes seja leve!
Narrado na primeira pessoa, Bentinho (D. Casmurro), prope-se a ATAR AS DUAS
PONTAS DA VIDA. Ao evocar o passado, a personagem  narrador coloca-se num
ngulo neutro de viso. Dessa maneira, pode repassar, sem contamin-los,
episdios e situaes, atitudes e reaes, acompanhadas apenas da carga
emocional correspondente ao impacto do momento da ocorrncia.
Simultaneamente, ope a esse ngulo de reconstituio do passado o ngulo do
prprio momento da evocao, marcado pelo desmoronamento da iluso de sua
felicidade. Dessa forma temos uma dupla viso da experincia, reconstituda em
termos de exposio e de anlise. A viso esfumaada do adultrio  um dos
requintes do Bruxo do Cosme Velho (Machado). Parece inspirado no drama de
Otelo, de Shakespeare.
CAPITU: olhos de ressaca, cigana oblqua e dissimulada  a mais forte criao
de Machado. Com inalterada frieza e racionalidade calculada vai tecendo o seu
destino e tambm o dos outros.
ESA E JAC
 a histria dos gmeos Pedro e Paulo, filhos de Natividade, que desde o
nascimento dos meninos s pensa num futuro cheio de glria para eles.  medida
que vo crescendo, os irmos comeam a definir seus temperamentos diversos:
so rivais em tudo. Paulo  impulsivo, arrebatado, Pedro  dissimulado e
conservador  o que vem a ser motivo de brigas entre os dois. J adultos, a causa
principal de suas divergncias passa a ser de ordem poltica  Paulo  republicano
e Pedro, monarquista. Estamos em plena poca da Proclamao da Repblica,
quando decorre a ao do romance.
At em seus amores, os gmeos so competitivos. Flora, a moa de quem ambos
gostam, se entretm com um e outro, sem se decidir por nenhum- dos dois: 
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retrada, modesta, e seu temperamento avesso a festas e alegrias levou o
conselheiro Aires a dizer que ela era inexplicvel. 0 conselheiro  mais um
grande personagem da galeria machadiana, que reaparecer como memorialista no
prximo e ltimo romance do autor: velho diplomata aposentado, de hbitos
discretos e gosto requintado, amante de citaes eruditas, muitas vezes interpreta
o pensamento do prprio romancista.
As divergncias entre os irmos continuam, muito embora, com a morte de Flora,
tenham jurado junto a seu tmulo uma reconciliao perptua. Continuam a se
desentender, agora em plena tribuna, depois. Que ambos se elegeram deputados,
e s se reconciliam ao fim do livro, com novo juramento de amizade eterna, este
feito junto ao leito da me agonizante.
Narrado em terceira pessoa pelo o Conselheiro Aires. H referncias  situao
poltica do Pais, na transio Imprio/Repblica.  marcado pela ambigidade e
contradio. Pedro e Paulo so os dois lados da verdade.
MEMORIAL DE AIRES
Este  o ltimo romance do autor. Aqui, dois idlios so narrados paralelamente, ao
longo das memrias do conselheiro Aires, personagem surgido em Esa e Jac: o
do casal Aguiar e o da viva Fidfia com Tristo. Trata-se de um livro concebido
em tom ntimo e delicado, s vezes repleto de melancolia. Nele Machado de Assis
ps muito dos ltimos anos de sua vida com Carolina, falecida quatro anos antes
da publicao. No h muito que contar, seno pequenos fatos da vida cotidiana de
um casal de velhos. 0 estilo  de extrema sobriedade, e o autor, j na velhice,
pretendeu com este livro prestar um depoimento em favor da vida, ainda que em
tom de mal disfarada tristeza e at mesmo desolao.
Memorial de Aires (1908) opera um verdadeiro retrocesso na obra machadiana.
Nele o romancista retorna  concepo romntica, mitigada pelo ceticismo risonho
do conselheiro Aires. Ai se respira a mesma atmosfera dos seus primeiros
romances: os seres so de eleio e a vida gira em torno do amor. Distingue-o,
porm, e torna-a muito superior queles a mestria do ofcio, o domnio do
instrumento.
Como novidade, traz a forma de dirio e o narrador no  onisciente; observa
como simples comparsa os personagens principais, procura adivinhar-lhes o ntimo
atravs de suposies prprias ou atravs de informaes alheias  a dar alguma
idia do processo de Henry James, este, entretanto, muito outro, com outras
intenes e de outra tessitura.
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